Ontem sonhei,
Um sonho tão silencioso,
Que chegou depressa para me confortar,
E depressa se foi, ansioso por me deixar.
Um toque de ternura,
Um som de compaixão,
Um cheiro de nostalgia,
Me tocaram o coração.
E então de um profundo sonho,
Tão dolorosamente mantido,
Os sentidos acordam uma vez mais,
Mesmo para serem de novo feridos.
Oh destino fatal, deixa-me descansar,
Não permitas que essa dor persista,
Não reabras a ferida que foi cosida,
Não destapes o terror que foi escondido.
Mas tu és mudo e cego também,
E de âmago cruel pelo que sei,
Pois dás aquilo que desejamos,
Só para nos despojar quando mais precisamos.
Reclamar, protestar, revoltar,
Não, não vale a pena,
Pois o sonho continua a torturar,
Uma mente já tão dilacerada.
Aquela figura, oh tão desejada,
Tal tesouro outrora perdido,
Tão ardentemente ambicionada,
Tão tristemente de nós arrancada.
Se eu pudesse, só mais uma vez,
Sentir-te aqui bem do meu lado,
Dizer-te como não sou nada sem ti,
Dizer-te como és tudo para mim.
Erros cometidos, crimes passados,
Aparecem então em malfadado sonho,
A culpa e a desgraça iludidos,
Destinados estão pois a tão cruel fado.
Queremos parar, queremos fugir,
De tal ilusão que queima e trucida,
De tamanha dor que é estar sem ti,
Que eu queria tanto ter junto a mim.
A garganta arde, a saliva envenena,
O coração corre nesta antiga cantilena,
Que não deixemos pois de sonhar,
Que deixemos sim de sentir.
Não seria pois mais fácil não sentir?
Não ter o prazer, mas fugir da dor?
Não sentir a alegria mas não ter a desilusão?
Talvez assim o sonho parasse.
Não consigo pois deixar de sentir,
Por muito que tente desistir,
O sonho continua e a dor também,
Numa dança cruel vinda do além.
Quero acordar, quero despertar,
Não aguento mais a tua face olhar,
Aquilo que tanto desejo, que tanto anseio,
É meu tormento, é meu pesadelo.
Pois nada há de pior,
Do que contemplar a beleza que não temos,
O carinho que não recebemos,
O amor que não possuímos.
Cessa então ó sonho maldito,
Some-te daqui monstro indesejado,
Não mais me iludas com o que não quero,
Não mais me mostres o que tanto amo.
Vai-te daqui, meu amor então,
Pois tua face em meus sonhos me atormenta,
Neles ficas tão perto que te desejo,
E só neles te tenho, aqui onde preciso.
E isso, ó fadado destino,
Não quero mais para mim,
Cansei de ilusões e esperanças falsas,
Que a cada curva me dilaceram mais um pouco.
Não consigo na verdade,
Mais dizer o quanto me dói,
Pois algo que amo mas não posso ter,
É ao mesmo tempo o que me completa.
Posso não te ter,
Mas sem ti vou morrer,
Um vazio, um espaço em branco,
Um corpo sem alma é tudo em que acabo.
Grito então, querendo acordar,
Farto de ver o que me falta me inundar,
Cansado de ter o que não existe,
De rastos por ser quem não pode aparecer.
Redimo-me então ao que sou,
Um ser em parte vazio, em parte ninguém,
Que não te pode ter mas sem ti não é,
Que de ti depende sem nem te ver.
Ligação estranha esta, que coisa engraçada,
Num sonho, num livro, tão singelamente revelada,
À luz do dia, a coberto da noite,
Complexa mas precisamente acertada.
Não te ter é o meu fim,
Mas ter-te não é para mim,
Um pedaço necessário que não existe,
Uma peça última que não pode encaixar.
Que construção tão maldosa é esta,
Que em sonhos me martiriza,
Que em livros se apresenta,
Que em mim tão forçosamente adentra.
Sombras deveras estas que vejo,
Sentimentos de ilusões que desejo,
Algo tão real mas tão distante,
Que me alegra sempre nem que por um instante.
Finalmente, consigo sentir,
O sonho finda, o dia começa,
A alma acorda, o corpo desperta,
A ilusão foge quando a sombra se fecha.
Acordo então, e vejo o mundo,
Frio e inóspito como ontem,
Mas talvez, quem sabe um dia,
Aquele pedaço que falta o aqueça.
Memórias gentis, de um sorriso cálido,
Lembranças de ternura, aquele abraço,
É tudo o que preciso, aqui de facto,
Para ser uno e não sumir no vácuo.
Seguirei então, de coração partido,
Colando pedaços ao longo desta trilha,
Sabendo que completo, nunca de novo o serei,
E somente com a certeza, de que sempre te amarei.
*Carlos