terça-feira, 23 de junho de 2009

Diferenças... Igualdades...

Será que interessa mesmo, a diferença ou a igualdade existente entre cada um de nós?



Todos sabemos de cor, a história de que "cada um de nós é único e especial". Ouvimos a mesma frase centenas de vezes enquanto somos crianças, e aprendemos que todos somos iguais independentemente da classe social, raça, religião ou idade, mas diferentes ao mesmo tempo. Mas é engraçado se pensarmos no fundo da questão. Ora se formos todos diferentes, partimos do pressuposto que cada um, que cada grupo de indíviduos tem direito a ser tratado da forma especial e única como merece certo? Mas... se assim é:

- Estamos prontos para ser reconhecidos como pretos/brancos/morenos e não levarmos a mal?

- Estamos prontos para ser vistos como o cristão, o judeu, o hindu, e não nos ofendermos?

- Se nos fizerem distinção num emprego de por exemplo sexos, compreenderemos nós que se calhar é por sermos diferentes e não por estarmos a ser discriminados?

- Se o nosso chefe recebe três vezes o nosso ordenado, pensaremos nós que o recebe de forma justa?

- Quando somos evitados por ser diferentes, estaremos a ficar magoados ou compreendemos que nem todos nos damos com o mesmo tipo de pessoas?

Isto soa tudo um tanto racista. Mesmo quando não se está a ofender ninguém as pessoas, na sua maioria já partem do princípio que as estamos a ofender porque as estamos a tratar como se fossem diferentes dos demais. Ok, então afinal não somos tão diferentes assim quanto queríamos ser. E não não é levar a coisa à letra, pois se todos somos diferentes, então porquê reagir mal quando nos tratam pela nossa diferença e não pelo que temos em comum com os demais?

Vamos agora pensar no caso oposto. Somos todos iguais. Já soa mais civilizado não já? Direitos iguais, e deveres iguais. Ups, essa palavra... os deveres... Se somos todos iguais então:

- Somos todos vistos pela justiça de forma igual dado que sejamos igualmente inocentes/culpados?

- Recebemos todos o mesmo ordenado ao final do mês dado que trabalhemos as mesmas horas?

- Todos recebemos o respeito que merecemos?

- Há discriminação na hora de atribuir empregos, dinheiros, géneros ou qualquer outro bem pessoal ou social?

- Temos direito a reclamar tratamento especial seja onde for, se somos todos iguais?

- Devemos recusar-nos a fazer um trabalho, em prol de alguém menos graduado? Mas não somos todos iguais?

Bem pelos vistos sermos todos iguais também não é boa solução. Se por um lado a diferença nos ofende, discrimina e marginaliza, a igualdade total tira-nos a individualidade e essência única de cada um. Hum... provavelmente todos temos coisas iguais e diferentes. Todos iguais mas todos diferentes... lá está, outra frase que ouvimos desde sempre. E esta já parece ser mais ponderada, mas será realmente tudo tão bonito assim? Se dentro da igualdade temos direito a que nos respeitem a individualidade então porque é que:

- Há racismos em relação a crenças, sexos, orientações sexuais e posições sociais? (não temos todos direito a ser únicos desde que não magoemos os demais?)

- Os inocentes pobres são condenados e os ricos culpados são ilibados? (a justiça não deveria olhar para todos de forma igual e condenar de forma justa?)

- Quem se ama e não faz mal a ninguém, não pode demonstrá-lo por ter medo de represálias? (se todos amamos porque é que só alguns podem vivê-lo sem medo?)

- Se somos igualmente formados e competentes, porque é que o filho do chefe ganha mais que eu? (não devemos todos poder obter recompensa digna daquilo que porque nos esforçamos?)

Pois é. Aparentemente, mesmo sendo todos iguais na diferença multicultural, continuamos a assistir a extremismos e injustiças. "É uma selva. É matar ou morrer". Há quem descreva a vida assim. Mas será realmente justo que tenhamos que pisar os nossos iguais, para conseguir vingar por cima das nossas diferenças?


*Carlos

sábado, 6 de junho de 2009

Conselhos de Esculápio


Agora que me vejo, a chegar ao final do meu primeiro ano, penso seriamente se este é o caminho que escolhi. Ao contrário de postagens anteriores, não vou dissertar, por agora, sobre este tema, mas sim remeter o assunto a um belo texto, lido nas aulas de História da Medicina, às quais nunca fui, mas para o exame da qual estou a estudar e aprendi a gostar um pouco.

"Queres ser médico, meu filho? Essa aspiração é digna de uma alma generosa, de um espírito ávido pela ciência. Desejas que os homens te considerem um Deus que alivia seus males e lhes afugenta o medo. Mas, pensaste no que se transformará a tua vida?

Terás que renunciar à vida privada: enquanto a maioria dos cidadãos pode, terminado o trabalho, distanciar-se dos importunos, a tua porta estará sempre aberta a todos. A qualquer hora do dia e da noite virão perturbar o teu descanso, o teu lazer, a tua meditação; já não terás hora para dedicar à família, aos amigos, ao estudo... Já não te pertencerás.

Os pobres, acostumados a sofrer, chamar-te-ão só em caso de urgência. Mas os ricos tratar-te-ão como escravo encarregado de remediar os seus excessos; seja porque têm uma simples indigestão, seja porque estão resfriados; farão com que te despertes e venhas a toda a pressa, logo que sintam alguma moléstia. Terás que te mostrar interessado pelos detalhes mais comuns da sua existência; terás que lhes dizer se devem comer carne de boi ou peito de galinha, se lhes convém andar deste ou daquele modo. Não poderás ir ao teatro nem ficar doente: terás que estar sempre pronto a acudir, quando chamado.

Eras rígido na escolha de teus amigos. Procuravas o convívio de homens de talento, de almas delicadas e de bons conversadores. Agora não poderás descartar os chatos, os pouco inteligentes, os presunçosos, os desprezíveis. O mal feitor terá tanto direito à tua assistência como o homem honrado: prolongarás vidas nefastas e o sigilo da tua profissão proibir-te-á impedir ou denunciar acções indignas das quais serás testemunha. Acreditas firmemente que com o trabalho honrado e o estudo atento poderás conquistar uma reputação: tem presente que te julgarão, não pela tua ciência, mas pela casualidade do destino, pelo corte da tua roupa, pela aparência da tua casa, pelo número dos teus criados pela atenção que dedicas às conversas informais e aos gostos dos teus clientes. Haverá os que desconfiarão de ti se não usas barba, outros se não procedes da Ásia; outros se acreditas nos deuses; outros se és ateu.

Gostas da simplicidade: terás que adoptar a atitude de um profeta. És activo, sabes quanto vale o tempo. Não poderás demonstrar cansaço ou impaciência: terás que escutar relatos que procedem do começo dos tempos, quando apenas se quer explicar a história de uma prisão de ventre. Os ociosos virão ver-te pelo simples prazer de conversar: servirás de escoamento para as suas mínimas vaidades. Embora a medicina seja uma ciência incerta, que graças aos esforços de seus discípulos vai adquirindo pouco a pouco, um certo grau de certeza, não te será permitido duvidar , sob pena de perderes a confiança que em ti depositam. Se não afirmas que conheces a natureza da enfermidade, que possuis o remédio para curá-la, o povo te trocará pelos charlatães que vendem a mentira que eles necessitam.

Não contes com o agradecimento de teus enfermos. Quando se curam, terá sido por sua própria robustez; se morrem fostes tu o culpado. Enquanto estão em perigo, tratam-te como a um deus: suplicam-te, exaltam-te, enchem-te de elogios. Apenas começam a convalescer, já os estorvas. Quando se lhes fala dos honorários, aborrecem-se e denigrem-te. Quanto mais egoístas são os homens mais solicitude exigem.

Não penses que esta profissão tão dura te tornará um homem rico. Asseguro-te: é um sacerdócio, e não seria decente que tivesses os ganhos de um comerciante de azeite ou de um político.

Compadeço-me de ti se te atrai o belo: verás o mais feio e repugnante que existe na espécie humana. Todos os teus sentidos serão maltratados. Terás que encostar o ouvido em peitos suados e sujos, respirar o odor das pobres favelas, os fortes perfumes das prostitutas; terás que palpar tumores, tratar de chagas verdes de pus, examinar urina, remexer em escarros, fixar o olhar e o olfacto em imundícies, colocar o dedo em muitos lugares.

Quantas vezes, num belo dia ensolarado, ao sair de uma representação de Sófocles, te chamarão para atender alguém acometido de cólicas abdominais, que te apresentará um urinol nauseabundo, dizendo satisfeito: “ainda bem que tive a precaução de não jogar fora”. Recordas então que terás que agradecer e mostrar todo o teu interesse por aquela dejecção.

Até a própria beleza das mulheres, consolo dos homens, se desvanecerá para ti. As verás pelas manhãs, desgrenhadas, desprovidas de maquilhagem, com parte dos seus atractivos espalhados pelos móveis do quarto. Deixarão de ser deusas para se converterem em seres afligidos pela miséria, sem graça. Só sentirás por elas compaixão.

O mundo parecer-te-á um grande hospital, uma assembleia de seres que se queixam. A tua vida transcorrerá à sombra da morte, entre a dor dos corpos e das almas, assistindo algumas vezes ao luto de quem está destroçado por haver perdido o pai, e outras vezes, a hipocrisia daquele que, à cabeceira do agonizante, faz cálculos sobre a sua herança.

Pensa bem enquanto há tempo. Mas se, indiferente à fortuna, aos prazeres, à ingratidão e, sabendo que te verás, muitas vezes, só entre feras humanas, ainda tens a alma estóica o bastante para encontrar satisfação no dever cumprido; se te julgas suficientemente recompensado com a felicidade de uma mãe que acaba de dar a luz, com um rosto que sorri porque a dor passou, com a paz de um moribundo que acompanhaste até ao final; se anseias conhecer o Homem e penetrar na trágica grandeza de seu destino, então, torna-te médico, hoje mesmo."


*Carlos

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Forgive, forget, learn and... try to be happy!

Para tentar ser feliz, por vezes há saber perdoar e seguir em frente!




Todos temos os nossos momentos de felicidade com toda a certeza, tal como todos temos os nossos momentos de tristeza. Os momentos felizes podemos achar que valeram ou não a pena, que compensaram ou não os momentos tristes já vividos mas o facto é que temos que os viver de qualquer forma. Quer de forma mais intensa, ou menos intensa, a dura realidade é que todos temos as nossas cruzes para carregar, independemente de crenças, sexos, raças, idades ou culturas.

Acredito no entanto, que além do facto de todos termos que viver o bom e o mau, e não somente um dos dois, também é comum a todos a necessidade de perdoar, de esquecer, de seguir em frente, pois se não o fizermos corremos o risco de cair numa espiral de tormento da "alma". Talvez seja a forma do destino dos indicar o caminho a seguir. Talvez seja a forma do nosso subconsciente se autoflagelar até que o lado consciente acorde para a vida e siga em frente! Não interessando o porquê nem o como, falo apenas do "quem"...

Durante a nossa vida, todos vivenciamos as coisas de forma única. Podemos achar-nos mais ou menos altruístas, mais ou menos inteligentes, mais ou menos tudo e mais alguma coisa que possamos encontrar no dicionário! Podemos pensar e achar muita coisa, racionalizar logicamente e profundamente reflectir sobre tudo o que bem entendermos, mas por muito que queiramos, é difícil ter certezas neste mundo. Não falo só de poder ou não citar afirmações sobre outrém, mas até mesmo sobre nós próprios! É difícil conhecermo-nos a nós mesmos a 100% quer tenhamos 19 ou 91 anos, pois o facto é que a vida é uma constante aprendizagem.

Ok, aos 90 anos é mais dificil modificarmos algo na nossa forma de ser, mas nem só de rotinas e previsibilidades nós somos compostos! Claro que cada um tem uma forma característica de ser, e inevitavelmente acabará por se definir e responder de forma lógica e coerente a determinados estimulos. Mas isto é o somente o quotidiano, e não o raro, o acaso, a coincidência. Podemos achar que por ser pessoas bondosas e altruístas mais facilmente perdoariamos a alguém que nos magoasse de alguma forma, ou ao contrário, acharmos que porque temos dificuldade em esquecer as coisas, perdoar é algo que está em alguns casos mais graves fora do nosso alcance.

Limites precários e temporários é isso o que chamo às previsões que fazemos das nossas próprias reacções perante coisas raras e que ainda nunca vivenciámos, pois a verdade é que são previsões baseadas em verdades que não correspondem à situação real! E o que fazemos quando descobrimos que não agimos da forma esperada? Bem isso vai da reacção e da maneira de ser de cada um! Se reagimos pior do que esperávamos, quer em termos de violência, quer talvez de inflexibilidade ou rispidez, talvez seja boa ideia rever a imagem que temos de nós mesmos, e avaliarmos como somos em situações raras, de stress (ou não) e fortes/curiosas emoções.

Se por outro lado ficamos surpreendidos pela positiva, e vemos que afinal conseguimos manter a calma perante o desastre, ou perdoar perante a traição, ou ajudar perante a queda do "inimigo", então talvez seja também hora de reflectirmos sobre nós mesmos e pensarmos que se calhar, se conseguimos em situações, para nós mesmos de limite, reagir bem, talvez sejamos nós mesmos que nos impedimos de reagir bem perante outras situações. Pois difícil é para quem de natureza reage mal no extremo, vir a reagir bem no quotidiano, mas mais dificil é para quem reage bem na situação limite e não se permite reagir igualmente no dia-a-dia, que venha a reagir bem.

Sejam estereótipos sociais, familiares ou entraves mentais por nós mesmos implantados, devemos primeiro que tudo pensar que se ultrapassámos o obstáculo maior, não seremos nós mesmos a atar os nossos próprios pés ao chegar perante os demais obstáculos? Apercebamo-nos então de quem somos na realidade, e não tenhamos medo de dizer que mudámos. Não temamos a mudança quando ela traz coisas boas a nós e aos que nos rodeiam, mas sim abracemos essa mudança pois dela brota um exemplo a seguir. Que tape a cara aquele que recusa perdoar quem o magoa por um malentendido, mas segue e perdoa os maiores crimes da humanidade àqueles que ama, e por oposto da lógica, que erga o queixo e caminhe orgulhoso, aquele que perdoou embora sob criticas tanto o amado que o traiu, como o amigo que o magoou, como o desconhecido que por coincidencia da vida sobre ele alastrou maldade.

Há quem diga que perdoar é divino. Que perdoar está ligado ao transcendental e ao religioso, mas para mim, isso é tudo uma questão de perspectiva. Para mim, perdoar em nada é divino, mas sim uma das expressões máximas de perfeição humana. "Mas a perfeição não existe" - ok, ok, peço perdão aos que tudo lêem e interpretam de forma literal, e para esses passo a explicar-me: a perfeição ideal é de facto inexistente, mas existe sim uma perfeição humana. Ela é cheia de defeitos sem dúvida, mas de defeitos que são aceites, reconhecidos e trabalhados para que possam em conjunto com as qualidades formar um todo uno e equilibrado, dentro é claro, de toda a subjectividade, unicidade e variabilidade inata a todo o ser vivo. É dentro desta perfeição humana que englobo o perdoar, o esquecer e o seguir em frente. Pois a vida, independentemente das crenças de cada um, é a única coisa real com que podemos contar por agora, e se não a vivermos ao máximo, então podemos estar a desperdiçar a única oportunidade que temos de viver! "Mas a reencarnação, a vida além da morte" - ok, eu preocupo-me com essas coisas quando lá chegar! Mas por agora, quero aproveitar a minha vida, tentando vive-la ao máximo!

E para viver ao máximo, para dominar esta arte que é viver num "Carpe Diem" constante, o perdão é só mais uma das muitas ferramentas que para mim deve ser usada, pois só com ele podemos ter (com ajuda do tempo e dos que nos rodeiam é verdade) paz de espírito e ser felizes de certo momento em diante. Memórias nunca serão esquecidas, mas também disso não passarão, de memórias, que nos servem de aprendizagem no máximo. Perdoemos então a quem temos que perdoar, esqueçamos o que devemos esquecer, e independemente de conseguirmos ou não reagir bem e aplicar estas coisas, tentemos aprender com tudo e sempre seguir em frente com a nossa vida, pois por agora, é a única de que dispomos e se não dermos o "tudo por tudo" para ser felizes AGORA, então podemos vir a arrepender-nos disso mais tarde. Afinal de contas, só não vive quem não tenta, só não sofre quem não tenta, mas só é feliz quem nunca desiste de tentar!


*Carlos