domingo, 19 de outubro de 2008

Amor Eterno / Angústia Eterna

Todos conhecemos a história de Romeu e Julieta... certo?





Sem dúvida uma das histórias mais intemporais, mais eternas, mais apaixonantes de toda a literatura. Para sempre imortalizada nas palavras da primeira tragédia de William Shakespeare, a história de como o ódio entre duas famílias pode levar a medidas tão extremas como a morte, até os amores mais puros.

Primeiro que tudo, temos o ódio primordial. Em Verona, cidade italiana, é incrível como duas famílias tão grandes e poderosas (Montecchio e Capuleto) se conseguiam odiar tanto! Geração após geração, o ódio em lugar se se esvair e desvanecer no tempo, intensifica-se e torna-se cada vez mais perigoso. Cada movimento brusco dá origem a briga. E não uma briga qualquer! Entre estas duas famílias, cada briga é uma briga de se lembrar quase que em epopeias! Mas enfim... o que uns fazem, outros seguem fielmente como se de uma religião retorcida e doentia se tratasse, sem nem pensarem em perdão.

O destino, infelizmente, dá voltas estranhas. E no seio de tamanho ódio nasceria pois um amor ainda maior. A pobre Julieta, tão nova e bela, recém pedida em casamento pelo formoso Páris, totalmente apoiado pelos Capuletos para tal acto, depara-se entre o dever e o coração, entre a família e a paixão. Romeu, um rapaz da família dos Montecchio, conhece por um fado tão negro e sádico, o anjo chamado Julieta. Olhares trocados, lábios tocados, almas unidas, formam pois um laço de amor tão grande, tão imenso que nem a morte viria a separar um dia. Louco, ardente e apaixonado é o segredo destes dois, que em encontros secretos e tão apaixonados, professam o seu amor um pelo outro de forma pura e arrebatadora.

Quer seja ao ler o livro, quer seja ao ver o filme original, quer seja ao ver o filme adaptado aos tempos modernos ou até mesmo os desenhos animados, ninguém foge a tamanha emoção que é o momento de cada encontro entre estes dois. Mas mesmo o mais belo amor, pode ser empatado por ódio e vingança. Quando um dos amigos de Romeu é morto por um dos Capuletos, o exílio é ordenado ao jovem Romeu, que para sobreviver e poder um dia ficar junto de sua amada foge de Verona, refugiando-se em Mântua.

Contudo, afectada quer pela morte do seu primo Tebaldo, quer pela fuga de Romeu, Julieta chora dia e noite e acaba por ver o seu casamento com Páris apressado. Desesperada, acaba por pedir auxilio a Frei Lourenço que com um elixir especial prepara a morte de Julieta. Assim, não querendo ser deserdada e abandonada por seus pais, mas recusando-se a casar com outro além de Romeu, na vespera do seu casamento Julieta deita-se e toma o elixir que no dia seguinte a faz parecer morta. Lágrimas choradas e corpo colocado em exposição no mausoléu, tudo parecia pronto. Tudo? Nem tudo!

Como sempre, a sociedade atrapalha e a teoria do caos é realmente caótica. Devido a vários pequenos incidentes de terceiras pessoas, aparentemente sem problema para elas, Romeu não chega a saber do planeado, e somente ouve falar da morte de sua amada. Ele regressa então e acaba por matar Páris, visitando depois Julieta ao mausoléu. É aqui então, que tudo por momentos parece ganhar futuro. Romeu sozinho com julieta, chorando agarrado a ela planeando matar-se, Julieta a acordar aos poucos. Perfeito não? O amor finalmente triunfa e todos vivem felizes e exilados de Verona para sempre. Ah que bom que seria... que bom, que feliz, que alegre... Pois é então que o ódio, que a revolta toma conta de todos.

Romeu não ter tido conhecimento do plano de Lourenço e Julieta devido a incidentes supérfluos já é enraivecedor, mas o que em seguida decorre, realmente corta e dilacera até as almas mais frias. Na maioria dos filmes e séries, e no livro enquanto nos perdemos em suas linhas, em todos os casos, sempre vemos um Romeu desfeito, que chora sobre o leito da suposta morte de sua amada. Vemos um Romeu pronto a morrer para se juntar a ela. Mas... um dedo começa a mover-se. As palpebras dão sinal de vida. Os olhos começam a abrir-se lentamente e a mão de Julieta, feliz por ver ali perto dela o seu amado estica a mão para tocar a doce face do seu amado. Mas... infelizmente, já é tarde. Por questão de segundos ou minutos (dependendo da edição/filme), os dois vêem o seu destino perder-se, escapar perante seus dedos. Romeu toma o veneno e coloca um fim à sua vida, no momento em que Julieta volta a viver da falsa morte, esperançosa de uma vida longa com o seu adorado amante.

Romeu morre. No leito de morte falso de Julieta, é o seu eterno amor quem falece primeiro. Quão irónico! Tudo porque duas famílias se odiavam e porque uma simples mensagem acerca do plano de falsificar a morte não foi entregue. Que revoltante. E como se já não bastasse, Julieta, ardendo de dor, pega o revolver/adaga de Romeu e tira a sua vida, morrendo ao lado dele. Claro que este evento leva ambas as familias a entrarem em paz e consenso... mas a que preço! Duas vidas tão preciosas e apaixonadas precisaram sofrer tanto, tudo para que um grupo de teimosos resolvesse esquecer e perdoar!

É de facto revoltante para quem vê/lê esta história. Ok, é sem dúvida linda, uma obra literária inesquecível e bela até dizer chega... mas... revolta naquilo de mais intimo que temos no nosso coração, ver como um amor tão puro foi levado a viver somente após a morte em paz! E pior ainda! Ver que ainda hoje em dia, coisas não iguais, mas semelhantes ocorrem todos os dias! Brigas, zangas, ódios, regras sem noção entre famílias, raças, religiões todos os dias impedem que pessoas que gostam de estar juntas possam desfrutar desse prazer. Será que nem com uma história fictícia como a de Romeu e Julieta conseguimos perceber quanta dor todos os dias é causada por não esquecermos ou perdoarmos? Será que nunca vamos aprender?


*Carlos

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