domingo, 20 de junho de 2010

O que nem sempre vemos


Por vezes, apesar de termos o dom da visão, o dom da audição, o dom do pensamento, nem sempre os utilizamos. Todos temos amigos e familiares com quem gostamos de estar, e que se nos pedirem ajuda nós de todo o coração os ajudaríamos. Mas como disse Fernando Nobre numa palestra dada em 2009 na Faculdade de Ciências Médicas, "o importante é ajudar não quando nos pedem ajuda, mas quando não nos pedem. Quando no silêncio dos sorrisos alguém precisa de nós mas não nos quer, não nos consegue dizer".

É precisamente neste silêncio das palavras, que as súplicas dos amigos deviam ser atendidas. Pensemos então em algumas situações:

Saídas, jantares e outros afins rotineiros de jovens: todos nós certamente gostamos de sair com quem mais queremos. Mas nem sempre o dinheiro chega para tudo. E por muito que não se apercebam, dói quando vemos as fotos de grupo onde não estamos, quando participamos em conversas de brincadeiras que não presenciámos. Quando alguém nos diz que nunca vamos sair com ele ou eles, que nunca entramos nas suas fotos, nas suas recordações. Até que um dia, alguém nos dia, pela calada da noite, enquanto se espera por uma boleia "hei, fazemos uma vaquinha os dois e pagas só metade". Nesse segundo, em que engolimos em seco, e na escuridão escondemos a lágrima que no canto do olho aparece, dizemos que não, que não temos tempo, que não podemos. Na verdade até podíamos, mas para nós a noite já está ganha, com aquele gesto simples de amizade profunda, de alguém que sem nos dizer que percebeu a nossa dor, nos confortou com o seu sorriso e ajuda discreta. Obrigado a todos os que aos seus entes queridos com estas acções os confortam, pois são deste momentos que eles mais se lembrarão. Mais que de todas as noitadas, jantares e cinemas que possam vir.

Eventos únicos: concertos, peças, exposições, viagens. Quem nunca gostou de ir aqui ou ali, sabendo que acontece raramente, mas... simplesmente o preço não compensava? E quantas vezes não se disse a alguém que estava a ser insensato, por achar que algo único nem sempre compensa? Paremos então e pensemos na real utilidade do dinheiro. Para alguns, ele serve para usar quando se precisa e quando se quer. Para outros se calhar, o "quando se quer" é mais limitado. Devíamos entender isso, e devíamos perceber que quando algo não se faz nem sempre é por não se querer. Por vezes, quem não foi, é quem mais queria ter ido!

Prendas: A eterna discussão do material vs simbólico. É verdade que coisas mais caras podem ser simbólicas por ser algo que queríamos muito. E certamente já todos nós dissemos ou alguém nos disse que discordava de que se oferecesse algo, pois não era simbólico. Eu próprio, já disse, como já presenciei a eterna "estás a ser mau", "estás a ser egoísta" ou a sempre cómica "ora não sejas parvo". Mas pensando atrás, se calhar o parvo fui eu. Bilhetes de concertos, peças de roupa caras, instrumentos tecnológicos exorbitantes. Claro que gostei de oferecer. Claro que quem recebeu adorou. Mas, agora que penso atrás, se pudesse, teria oferecido um livro que a pessoa não pode comprar a alguns. Teria oferecido o instrumento tecnológico a quem não o compra porque não pode, e não a quem não compra porque gastou o dinheiro em outra superficialidade. O mesmo para a peça de roupa. E se calhar a quem sugeriu a prenda simbólica em vez da outra mais cara, teria dito (mea culpa) um "olha que até tens razão" em vez do que disse e me arrependo (ter a idade que tinha, não é a meu ver desculpa pois já tinha cabecinha para pensar melhor).

As lamúrias de quem muito tem: Ok, este último tópico é algo controverso. Cada um tem os seus problemas e a sua realidade. Todos sabemos disso. Mas quantos de nós já não se queixaram de algo, que para outros seria um sonho se poderem sequer queixar? Uns de nós queixam-se ou maldizem a própria roupa ou a roupa dos demais - já pensaram que pode ser a que lhe deram? Outros queixamo-nos da falta de dinheiro, que já temos pouco - já pensaram que nós tendo pouco para coisas cuja maioria o pouco delas as torna um sonho? E alguns ainda nos queixamos de mal de amores, que somos uns coitados com namoros e triângulos amorosos - e quantos nunca sequer olharam para eles ou nunca tiveram nada seu apreciado? Todos erramos, e todos nos queixamos demais por vezes. Mas vamos a ter atenção que muita vez também já vi ou senti, a lágrima na alma, de quem ouve as lamúrias, e sorri ou conforta (principalmente na área materialista que a sentimental é relativa) quem se queixa. Se calhar em vez de nos queixarmos a céu aberto, devíamos era agradecer por mesmo não tendo dinheiro na conta, misteriosamente termos dinheiro à vontade e não nos faltar nada não é mesmo?

Enfim, acho que já deu para perceber :) Normalmente não nos cabe a nós ajudar monetária ou emocionalmente os demais. Já ajudamos se soubermos ser amigos e compreender que a nossa realidade não é a dos demais, e que temos que ter atenção às nossas reacções. Claro que quem é nosso amigo não nos leva a mal. Mas sofre, e por vezes muito sem nos dizer. Portanto, vamos a ser realmente amigos do nosso amigo e a utilizar a inteligência que felizmente maioria tem disponível ^^


*Carlos

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