Quando o coração torna a memória dolorosa
Todos nós já tivemos saudades de alguém ou de alguma coisa. As boas memórias marcam-nos e essa marca vai causar dor quando começar a ficar distante no tempo. Um tempo perdido, umas férias passadas, um amigo esquecido, um amor afastado. Um ano, um mês, um dia, um segundo. Não importa o quê ou por quanto tempo, mas sim o facto de que todos sofremos à nossa maneira. Mas porque temos que sofrer? Porque não podemos simplesmente viver a vida, indiferentes ao passado e futuro, somente concentrados no presente? Pois pensamos. Ó como pensar é difícil. Como pensar nos faz sofrer. É certo que podemos desfrutar de cada momento da nossa vida mais intensamente, por termos o dom da razão. Mas… também é por vivermos cada momento tão intensamente, que mais tarde entramos num estado de melancolia, de saudade de tais momentos. Contudo, esta dor, este sofrimento, nós decidimos tê-lo. Não o queremos, mas não nos importamos de o ter. Talvez por fé, talvez por princípio. Ou não? Será a saudade tão importante assim? Será esta dor nostálgica uma pedra angular da nossa existência? Pensemos então.
O que nos faz viver? A maioria, senão todos nós, temos uma vida difícil, e com dores e pesadelos diários. Problemas pessoais, familiares, económicos, de saúde, de relacionamentos, isto claro, excluindo o mundo hostil em que vivemos, as notícias de guerras, chacinas, assaltos, catástrofes que a toda a hora nos chegam por vários meios. Temos que ser realistas, a vida é um dom maravilhoso, mas não é bela de se viver! Na verdade, é bastante deprimente! O que a faz parecer bela, são os momentos de felicidade, em que esquecemos todos os nossos problemas, em que nos abstraímos de todas as desgraças e somos realmente felizes. E é por esses momentos que vale a pena viver. Um sorriso, um abraço, um toque, um agradecimento, até mesmo um olhar. São estas breves coisas que nos fazem felizes, e infelizmente, são elas que nos marcam tão fundo na alma, que mais tarde esta arde em saudade. Valerá então a pena? Por momentos de prazer, uma eternidade de nostalgia? Lógico que sim! O que seria de nós, ser humano, sem a saudade? Sem a esperança? Se não tivermos algo que lembrar, nem algo que desejar, de que serve a vida? Como podemos desfrutar ao máximo de cada momento da nossa vida, se não conseguirmos relembrá-lo mais tarde?
Para toda a luz, a escuridão, para cada sorriso, um choro, por cada momento de alegria, um momento de dor. Tudo na vida tem coisas boas e más, e se temos esperanças, sonhos, desejos, também teremos lembranças, memórias, saudade. É isto que nos faz sofrer, mas também que nos faz sorrir. É tão bom relembrar aquele momento especial, aquela cena de felicidade, aquela pessoa maravilhosa. É dolorosa tal lembrança? Sim pois não passa de uma memória. Mas vale a pena? Com certeza! Ainda que doa, ainda que arda, sempre saberemos que alguém nos ama, que em algum momento nos divertimos. E isso traz-nos esperança de que possamos voltar a ser felizes. Talvez não daquela forma, pois cada momento é único. Talvez não com aquela pessoa, pois ela pode nunca mais voltar. Mas aquele tipo de sentimento, é essa esperança que nos alimenta e nos dá forças para continuar.
Não interessa se é muito ou pouco. Não interessa porque ou por quem sofremos com a saudade. Interessa somente que nos agarremos à saudade, não para nos perdermos e sufocarmos nela, mas para a transformar em esperança de desejo. Voltaremos a sorrir, voltaremos a estar juntos, voltaremos a ser felizes. Voltaremos…
"I Miss You" - Blink 182
"When Your're Gone" - Avril Lavigne
*Carlos
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